Leite, amendoim e camarão: o que pode provocar alergia e quais os alimentos que mais causam reações

Saúde
Predisposição genética e fatores epigenéticos estão entre as causas da alergia alimentar. Se um parente de primeiro grau tem, possivelmente a criança também terá. É comum que a alergia alimentar surja na primeira infância
G1
Coceira, diarreia, dor abdominal, vômito e vermelhidão são alguns dos sintomas de alergia alimentar, uma resposta exagerada do sistema de defesa do corpo a alguma substância. O sistema imunológico confunde um alimento específico com invasores e produz anticorpos contra ele. Essa resposta do organismo pode desencadear uma série de reações.
Renata Cocco, alergista pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que a grande maioria das pessoas apresenta os mecanismos de tolerância oral bem estabelecidos. O sistema imunológico entra em contato com algum tipo de proteína e o indivíduo não vai reconhecer como agente estranho. Já outras pessoas acabam reconhecendo porque não têm esse mecanismo bem formado.
Por isso, é comum que a alergia alimentar surja na primeira infância, quando o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento e sendo adaptado. Mas isso não quer dizer que uma pessoa não possa começar uma alergia na fase adulta.
” Na criança, essa falta de mecanismo está relacionada com a imaturidade do sistema imunológico. Já na idade adulta, há uma quebra desse mecanismo que ainda não se sabe exatamente a razão”, diz Renata Cocco.
Geralmente, a alergia que surgiu na infância acaba passando, principalmente se for relacionada ao ovo, leite, soja ou trigo. Já alimentos como amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar as alergias são tipicamente persistentes, ou seja, durarão para o resto da vida.
🦐 🥛Os alimentos que mais causam alergia alimentar:
leite
ovo
trigo
soja
amendoim
castanhas
peixes
(o gergelim está entrando na lista de alguns países)
E o que provoca a alergia alimentar?
Duas podem ser as causas principais das alergias alimentares: a predisposição genética e os fatores epigenéticos.
“As mudanças que estamos vendo de estilo de vida, mais urbanização, o uso de antibióticos, menos contato com a natureza e alguns agressores, como poluição, alimentos ultraprocessados, acabam fazendo aumentar as alergias”, pontua Lucila Camargo, coordenadora do departamento científico de alergia alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).
Sobre a questão genética, as especialistas explicam que a presença de alergia em um parente de primeiro grau (pai, mãe ou irmão) aumenta a possiblidade de alergia na criança. No entanto, não necessariamente a criança “herdará” a alergia ao mesmo alimento, por exemplo.
“Não é qualquer alergia que venha a ter o pai, mãe e irmão. Tem que ser algo como asma, rinite alérgica, dermatite atópica ou alergia alimentar. E não significa que a criança vai desenvolver o mesmo problema. É só uma predisposição a mais para apresentar qualquer tipo de alergia”, ressalta Renata Cocco.
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A dessensibilização é uma tentativa de forçar o sistema imune a tolerar o que ele não tolera, mas o tratamento não é para qualquer um e NÃO deve ser feito em casa
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Pequenas doses do alimento alérgeno
Se a pessoa tem alergia ao alimento, pequenas doses podem ajudar a criar tolerância, correto? Não é bem assim.
As alergistas explicam que a dessensibilização é uma tentativa de forçar o sistema imune a tolerar o que ele não tolera, mas o tratamento não é para qualquer um e NÃO deve ser feito em casa, sem supervisão e orientação de um profissional.
“É um tratamento, não é prevenção. Existem estudos que mostram bons resultados para amendoim e castanhas. Para leite e ovo não há tanto consenso entre as classes de especialistas. Vale lembrar que o tratamento não significa que a pessoa ficará curada e poderá comer o que quiser, a hora que quiser”, alerta Lucila Camargo.
“Esse processo pode ser recomendado em alguns casos, mas deve ser sempre orientado, supervisionado por um especialista que tenha conhecimento e experiência nesse procedimento. Isso nunca deve ser feito em casa, sob o risco de apresentar uma reação anafilática grave. E esse processo não leva à cura”, complementa Renata Cocco.
Quando bem recomendado, ele pode condicionar o sistema imunológico a não reconhecer como agente estranho uma certa quantidade do alimento. Por exemplo, o tratamento pode levar a uma liberdade de comer até dois amendoins.
“Essa prática não deve ser realizada em casa de forma nenhuma”, diz Cocco.
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Diagnóstico não é simples
Os sintomas de alergia alimentar são comuns a muitas outras doenças. Por isso, é essencial investigar antes de fechar o diagnóstico. Segundo as especialistas, os casos de alergia alimentar estão aumentando no Brasil e no mundo, mas também existem muitas pessoas com diagnóstico equivocado. Ou seja, a pessoa acha que tem, mas quando investigado, descobre-se que ela estava restringindo algum alimento sem motivo algum.
“Como estamos falando de restrição alimentar, qualquer exclusão de alimento pode se tornar um estigma pessoal, psicológico e nutricional. Isso deve ser muito bem estabelecido por um médico experiente”, diz Renata Cocco.
A primeira etapa do diagnóstico é a chamada anamnese – uma conversa do especialista com o paciente, onde ele relata o que aconteceu (qual foi a reação, tipo de alimento ingerido, etc). Esse é o ponto inicial. Com a suspeita do possível alimento, o paciente passa por testes alérgicos e exames de sangue específicos.
“Existem alguns testes que medem o IgG e que não têm respaldo científico, não tem nenhum valor diagnóstico e eles às vezes são encontrados em farmácias. Esse tipo de teste deve ser abandonado, porque ele não tem nenhum valor científico no diagnóstico de alergias alimentares”, alerta a alergista pediátrica do Hospital Albert Einstein.
Caso ainda surjam dúvidas sobre o diagnóstico, entra em cena o teste de provocação oral, considerado padrão ouro, que consiste na oferta do alimento ou do placebo em um ambiente controlado. Ele também pode ser usado para avaliar a remissão da alergia.
Como os pais devem lidar com a alergia dos filhos
Para Andrea Sampaio, médica nutróloga do Hospital Sírio-Libanês, os pais precisam se informar sobre as alergias do filho e aprender a identificar os sintomas.
Além disso, devem manter o ambiente seguro e livre de alérgenos conhecidos, comunicar a cuidadores, professores e amigos sobre a alergia da criança e como agir em emergências, garantir que a criança siga o tratamento prescrito e tenha acesso a medicamentos necessários.

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